terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Ditadura montou até dossiê contra Niemeyer

Sem novidades, só o ridículo da ditatura de perseguir e exilar um gênio reconhecido mundialmente como Oscar Niemeyer. Pois é, não surpreendem as revelações dessa reportagem publicada pelo Estadão de ontem, de que o regime militar montou dossiê contra ele e monitorou também os passos do mestre dos arquitetos brasileiros. A ditadura realmente era capaz de tudo, em matéria que ia do rídiculo ao execrável.
Um simples telegrama de Luiz Carlos Prestes a Niemeyer cumprimentando-o pela inauguração de Brasília em 1960, tornou-se uma das principais provas de que o arquiteto era um homem de esquerda. A mensagem terminou se constituindo na principal base  para o Serviço  Nacional de Informações (SNI) pedir em 1973 ao Ministério da Justiça que abrisse processo sigiloso contra ele.
"Nesta data em que Brasília passa a ser a capital do País, envio-lhe em nome de todos os camaradas do nosso Partido nossas congratulações mais efusivas. Sua atividade criadora em Brasília merece nosso maior aplauso, é elevada expressão da capacidade de nosso povo e testemunho da contribuição dos comunistas ao progresso do Brasil. Nosso augúrio - que sabemos ser também o seu - é que Brasília venha a ser no menor prazo possível a capital de um Brasil próspero e feliz, completamente emancipado do jugo imperialista, numa grande e bela cidade, livre de favelas e miséria, capital de um Brasil livre, democrático e socialista. Com nossas saudações patrióticas extensivas a todos seus auxiliares, afetuosamente Luiz Carlos Prestes", diz o telegrama do dirigente do PCB.
Arquiteto era considerado um perigoso homem de esquerda
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Foto: Ricardo Stuckert/Foto de Arquivo PR
No governo do general Emílio Garrastazu Médici (q1969-1975), Niemeyer era alvo dos espiões do regime. Os documentos a respeito e que serviram de base para a reportagem de ontem do Estadão estão em dossiê sobre o arquiteto guardado no Arquivo Nacional. O original do texto (assinado pelo próprio Prestes), segundo explica o próprio SNI, foi apreendido pouco depois do golpe de 1964 em meio a documentos de Prestes - durante décadas secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, o PCB - recolhidos pela repressão no Rio e em São Paulo.
A documentação no Arquivo Nacional contém informes da comunidade de informações sobre o arquiteto e cópias de entrevistas e reportagens a seu respeito na imprensa estrangeira. O PCB nunca adotou a luta armada, desde o início da ditadura manteve sua opção pela via pacífica via pacífica para o socialismo, mas, mesmo assim, Niemeyer era considerado um homem perigoso para o regime.
Outro informe constante no dossiê feito contra Niemeyer dá conta: "Dia 02 Jan 71, às 19,30 horas, foi exibido, na televisão norueguesa, um filme falado em inglês, com elementos colhidos em BRASÍLIA, sobre a obra de OSCAR NIEMEYER, onde este, depois de referir-se em termos elogiosos ao ex-presidente JUSCELINO KUBITSCHEK DE OLIVEIRA e ao engenheiro LUCIO COSTA, confirmou, ostensivamente, ser comunista. Pouco depois, o arquiteto aparece em sua casa de campo, ao lado de uma piscina, demonstrando, inadvertidamente, ser apreciador do conforto do regime capitalista. O filme televisado (sic), a par da propaganda pessoal do arquiteto, constituiu-se numa demonstração negativista da realidade brasileira, pela ênfase dada aos aspectos de pobreza e subdesenvolvimento focalizados (...)."
A documentação inclui, ainda, trecho de entrevista publicada na revista peruana Oiga em seu número 373, de 8 de maio de 1970, no qual Niemeyer dá definição política de si mesmo. Ele afirma: "Sou comunista, você o sabe, mas também sou brasileiro, e é por ser brasileiro que sou comunista".

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