quarta-feira, 2 de maio de 2012


Os 1º de maio da imprensa brasileira
Dissertação de mestrado analisa centenas de editoriais publicados entre 1974-1984 pelos jornais Folha de S.Paulo e O Globo, abordando diferenças e convergências entre os dois veículos, caracterizados pelos seus posicionamentos político-ideológicos em relação ao papel do Estado na relação capital-trabalho, tendo como pano de fundo nada irrelevante o regime militar instaurado em 1964 com o apoio declarado da imprensa nacional. O artigo é de Maria Luiza de Castro Muniz.
Maria Luiza de Castro Muniz (*)
No fluxo dos “anseios nacionais”: opinião publicada e questão trabalhista (1970/ 80) expõe uma análise da opinião de dois importantes veículos da imprensa tradicional sobre a questão trabalhista e o “novo sindicalismo” no contexto da transição democrática. Foram analisados centenas de editoriais publicados entre 1974-1984 pelos jornais Folha de São Paulo e O Globo. O artigo foi produzido como parte da dissertação de mestrado intituladaOpinião pública e opinião publicada (2010) e aborda diferenças e convergências entre os dois veículos, caracterizados pelos seus posicionamentos político-ideológicos em relação ao papel do Estado na relação capital-trabalho, tendo como pano de fundo nada irrelevante o regime militar instaurado em 1964 com o apoio declarado da imprensa nacional. 

Nem tão longe, nem tão perto...
Com a leitura dos editoriais, nota-se que O Globo apresentou ao longo do período estudado uma postura mais conservadora, alinhada direta e abertamente com o regime militar, sendo defensor incondicional das condições tuteladas de abertura e transição. Já a Folha de S. Paulo, ao longo de uma década (1974-84), apresentara imagem cada vez mais afinada com os “anseios democráticos” da sociedade civil, principalmente a partir de uma reformulação editorial concebida em meados de 1970 e desenvolvida nos anos seguintes. O jornal da família Frias passou a reforçar, progressivamente, uma postura crítica em relação ao regime militar e de oposição às manobras de tutela e continuísmo impostas durante os governos Geisel e Figueiredo.
 

O Globo, por sua vez, se opôs à mobilização nacional das Diretas Já de 1984 utilizando justificativas em defesa do sistema representativo. A Folha, por sua vez, advogava em favor da pressão popular, fazendo ecoar um “uníssono” desejo pelo voto direto para escolha do presidente da República. Um dizia valorizar o princípio representativo, o outro dava ênfase à participação de setores da sociedade colocando-se, ao mesmo tempo, como mandatário da escolha de seu leitorado.

Ambos convergiam, contudo, em questões que considero bastante significativas: a interpretação ‘saneadora’ do golpe civil-militar de 1964 e as mensagens “anti-revanchistas” referentes à visão da Lei de Anistia como um caminho explicitamente associado ao “esquecimento”. A Folha, a exemplo d’O Globo, argumentava que a “campanha cívica” pelo restabelecimento das eleições diretas para escolha do presidente da República deveria afastar-se do “fantasma do revanchismo argentino”.
 

Os dois jornais também convergiam no discurso sobre as motivações do golpe de 1964: o descontrole e a fraqueza de Jango em conter as pressões sociais. Para o jornal paulista, o “governo João Goulart não se mostrou capaz de conter dentro dos limites da ordem e da lei o caudal de pressões políticas e reivindicações sociais” – vide o editorial 20 anos depois, publicado em 31 de março de 1984.
 

A imprensa entre aspas
No 1º de maio de 1979, o editorial d’O Globo
 Responsabilidade sindical trazia no próprio título a condição para a inserção do trabalhador na economia capitalista. Do título à conclusão a falta de responsabilidade e o irrealismo são relacionados às seguintes atitudes:

(1) na relação com os empresários, “reivindicar o impossível”, “criar impasses” e “abusar do direito de greve”;
 

(2) na relação com o governo, “favorecer a inflação”, “comprometer a liberalização do processo institucional”, “provocar respostas e medidas drásticas no interesse do respeito à lei e da manutenção da ordem”.
 

Recaia sobre os trabalhadores, historicamente o elo mais fraco e desfavorecido nas relações capitalistas, a responsabilidade pelas consequências de sua própria superexploração. E ainda de sua repressão, já que os próprios trabalhadores, dizia o jornal, “provocam respostas e medidas drásticas”. Assim, ignorando por completo o conceito de classes sociais e os interesses antagônicos em jogo, bem como a própria realidade política marcada pela vigência de uma ditadura militar, O Globo defendia as supostas condições caracterizadas pelo “pacto social”, pelo “pluralismo” e pela possibilidade de uma “aliança” em substituição perfeita ao “confronto sistêmico”.
 

Como contraponto e contextualização ao discurso do jornal carioca e do então presidente João Figueiredo em relação à necessária “modernização” da CLT, observamos que, na prática, o termo entre aspas tornou-se eufemismo para “precarização” das relações trabalhistas. Entre as transformações advindas do Programa de Ajuste Estrutural, receituário exigido pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial – e adotadas em diversos países da América Latina, total ou parcialmente –, estivera a famigerada “flexibilização do mercado de trabalho”.
 

Já em outubro de 1984, no editorial Greves sem bandeira, O Globo privilegiava repetidamente a ideia de que a greve era ilegal e “antipovo”: “A greve no serviço público, proibida na Constituição, é a greve por excelência contra o povo, destinatário desses serviços”. Esse argumento é repleto de gravidade se considerarmos que tal afirmação tende a excluir os grevistas da categoria “povo” e, ao fazê-lo em nome dos ‘interesses da Nação’, o jornal excluía os interesses e demandas de boa parte de seus integrantes.

Ao contrário de outros jornais, a Folha expressava maior sensibilidade para com as reivindicações trabalhistas, dedicando alguns editoriais a defender a “formulação de um novo contrato social democrático”. Por um lado, o jornal paulista, especialmente em contraponto ao seu concorrente local (O Estado de S. Paulo). Por outro, a trajetória empresarial traçada pelos donos do jornal apontaria no ano-chave das Diretas Já para um rígido controle industrial e tecnológico, implantado na redação através do pioneiro Projeto Folha (1984). Diretor de redação da Folha em1984, Otávio Frias Filho destacava os benefícios do “taylorismo”
 [1] na redação de um jornal, ressaltando preocupações com a “racionalização da tarefa jornalística” em benefício da missão para com o leitorado da Folha de S. Paulo.

Assim, a proposta de um “novo contrato social democrático” seria permeada pela regulação impessoal do mercado. As propagadas “apartidarização” e “desideologização” do jornalismo representavam que o mercado – e não mais as paixões ideológicas – ganhava destaque como regulador das relações sócio-econômicas no cenário da democracia representativa liberal. Tanto o ritmo de produção da notícia quanto as questões trabalhistas deveriam passar pelo filtro da lógica de mercado. Este era visto como supostamente desprovido de marcas ideológicas. (
A íntegra do estudo está disponível aqui)

NOTAS
[1] Modelo de administração “científica” desenvolvido pelo engenheiro norte-americano Frederick Taylor (1856-1915) que envolve a divisão de funções dos trabalhadores, adestramento do operário numa função específica, visando eficiência, racionalização da produção e diminuição dos custos unitários de produção.

(*) Historiadora e cientista política

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